Além das portas

Alberto Cohen

Quando percebi tuas malas prontas
para a viagem do que eu não sabia,
um pranto derramei internamente
pelo meu coração que repartia
a solidão batendo em minha porta
e a frigidez de novo nos meus dias.
Ainda quis prender-te nos meus braços
como se prende toda uma alegria
que muda o nome por melancolia
e apaga os versos de uma poesia.
Calei-me, pois teu rosto era uma festa
de quem vai, de repente, para um baile
que te esperava olhando pelas frestas
das janelas de um mundo que eu não via.
Pedi perdão por tantos meus pecados
e na mudez dos que se sabem tristes,
traçando rotas pelos descaminhos
aprendi que na imagem dos espelhos,
muito além da brancura dos cabelos,
eu e eu não estávamos sozinhos.

 

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