A moça que passa
 
Alberto Cohen
 
Quando aquela moça passa,
até os bancos da praça
levantam-se para ver
o corpo que se adivinha,
o riso que faz covinha,
os olhos de longe olhar.
Na matriz redobram sinos
e um magote de meninos,
o colégio a gazear,
tece um tapete de plumas
de algodão de samaúma
aonde ela vai pisar.
Mulheres fecham janelas,
esconjurando a beleza
que passou tão perto delas
que quase deu pra tocar
e espalhou na redondeza
cheiro de rosas no ar.
No semáforo da esquina,
verde, vermelho, amarelo,
revezam-se no saudar
aquela que faz mais belo
o dia que descortina
a moça que vai passar.
Buzinas, como cornetas,
embora seja dezembro,
tocam sete de setembro
para o doce desfilar
das pernas mais que perfeitas,
dos seios na camiseta
que parecem levitar.
Nos botequins mais imundos,
os bêbados vagabundos
nos cabelos passam pentes,
abotoam colarinhos,
vão pra rua, sorridentes,
olhos fazendo carinhos
no sonho que vão sonhar.
Porém a moça que passa,
passava, agora passou,
deixando, apenas, magia,
levando o ar de sua graça
para outra gente, outra praça,
para uma nova poesia,
sabe Deus em que lugar.
 
 
 
 
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