Esfinge

Alberto Cohen

Esfinge que te interpelas
na solidão do teu quarto,
quantas respostas esperas
de ti mesma que és somente
uma imitação de gente
feita em pedras seculares?
De tua boca saem serpentes
pueris, inofensivas,
repetidas há mil anos,
numa língua quase morta,
na tua mansa revolta
do medo não inspirar.
Olhas o espelho sozinha,
silêncio que se avizinha
num antigo perguntar:
Responde por que és de pedra,
tu que sabes confundir?
Responde por que devoras
a ti mesma, pouco a pouco,
nesse teu destino louco
de não ter quem devorar?
E o monstro que foi sofisma,
entre lágrimas e cismas:
Eu sou o meu próprio enigma,
não pergunto nem respondo,
devoro-me e ao meu silêncio
de pedra que sempre fui.
Todos têm minhas respostas,
não sou mais que pobre estátua,
já fui sobrenatural.
Hoje me pergunto coisas
que não mais lembro, esqueci.
A lei tem que ser cumprida!
Devoro-me e não a ti...

 

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