Hora da verdade

Alberto Cohen

Quase é chegada a hora de dormir.
Dormir o maior sono, o mais solene.
As garças brancas que pescam na areia,
deixarão seus peixinhos e cuidados
e num revoar de penas e beleza
dirão adeus ao que segue sozinho.
O céu terá nuvens-carneirinhos
que a mulher ensinou para o menino,
em momento de sol, em outra praia,
num descuido de poesia e de carinho.
Aquela sereia de olhos castanhos
e o encantado vestido de linho,
sorrindo, finalmente de mãos dadas,
virão ninar e adormecer o filho.
O corredor temido e ignorado,
portas abertas e luzes brilhantes,
juntará todo tempo e todo espaço
nos derradeiros passos do andarilho.
E o sono-sonho na paz de santuário,
com respostas a todas as perguntas,
reduzirá mil anos a um instante,
em eterno sabor de aniversário.

 

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