Izabel

Alberto Cohen

Foi num folha de papel, Izabel,
que rascunhaste aquelas poucas linhas
que contestavam meu conceito de impossível.
Acreditar por que no sortilégio
de um fim de tempo ser o escolhido
para um sonhar com tão pouco futuro?
Na certa era brinquedo de uma jovem
a consolar tristezas diuturnas
de um ser habitante de passados,
de alguém que se escondia atrás dos muros.
O inesperado beijo de romance
que me tornou incrédulo, assustado,
fez que eu lembrasse de que antigamente
muito beijei e muito fui beijado.
E repetiste a cena várias vezes
e o menino que sou correspondia
à compulsão dos dois corpos colados
que me tornou esse guri pedinte
e transformou-te na mulher sedenta.
Ninguém finge beijar daquela forma
de se dar duma maneira inteira
que só as almas gêmeas reconhecem.
Tens o pouco de vida que me resta,
mas me ofereces a existência inteira.
És minha imã, amante, companheira
e sou teu servo Princesa Izabel
no brilho do olhar que diz que amas,
nas linhas que traçaste no papel.

 

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