Macros e micros

AlbertoCohen

De que serve um olhar alerta
para minúcias,
se as coisas acontecem sempre
no macro?
Tudo se indefine no imenso
para não ter que perceber o pequeno,
o que existe muito amiúde,
o que se enxerga pelo rabo dos olhos,
o que parece não estar lá.
Pequenos amores eternos
e internos,
sem teatrais demonstrações
para a posteridade,
como o amor de Francisco e Benedita
(Chico e Bené para os íntimos),
que somente se precisam, acasalam
e se bastam.
Pequenos funcionários burocratas
com encargos pequenos
mas imprescindíveis:
vigiar o ponto,
conferir multas
e até levar recados etiquetados
de correspondência,
enquanto sonham ser motoboys.
Ah, motoboys,
esses pequenos artistas da velocidade,
destruindo tudo à sua passagem,
muitas vezes a própria vida,
para que a pizza não chegue fria.
Camelôs de CDs piratas
que tornam a cultura acessível
em cada cópia que vendem,
baratinho.
Pequenas prostitutas lecionando sexo
para adolescentes,
sem direito ao descanso remunerado
e aposentadoria por merecimento,
ou tempo de serviço.
Apontadores de jogo do bicho
na missão ecológica de divulgar
espécies pré-extintas
e no sagrado dever de pagar o prêmio,
honestamente,
para honra e glória da contravenção.
Enfermeiros de pronto-socorro
exibindo nos brancos aventais
orgulhosas manchas de sangue
de algum atendimento ou cirurgia,
e que, vez por outra,
na ausência de médicos,
são tratados de doutores
e vivem para esses momentos.
Guardas municipais,
pequenas autoridades
cumprindo o dever nas ruas,
embora invejando a farda
da polícia militar.
Empregadas domésticas
de serviço geral,
que fazem dos móveis da casa
intransponíveis barricadas
contra as costumeiras investidas
dos filhos dos patrões,
e que, por condescendência,
são chamadas secretárias.
E as secretárias não executivas
que interrompem a datilografia
para servir cafezinhos
aos chefes e visitas,
com um protocolar sorriso no rosto?
Os ascensoristas,
éticos e sem identidade,
manobrando suas naves pequenas,
sempre na mesma rota
ascendente ou descendente,
coletando retalhos de conversas,
cúmplices sorrisos,
disfarçados afagos.
Pequenos poetas
tentando adivinhar poemas
que sejam publicados em antologias,
com despesas divididas
entre os participantes.
Pequenos amores, pequenos sonhos,
pequenos desejos,
micros que adquirem identidade
no advento do ano eleitoral,
voto obrigatoriamente bajulado,
unidade lembrada finalmente.

 

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