Não se pode chorar sempre

Alberto Cohen

Mas afinal de contas estamos vivos. Os passarinhos voam sobre nós, as plantas e as flores sopradas pelo vento fazem mesuras e cumprimentos quando passamos por elas, e o riso das crianças está em toda parte alardeando que o futuro existe.

O passado se foi e parte do hoje ainda é futuro. A surpresa aguarda nas esquinas o incauto transeunte para mostrar-lhe um inusitado momento que pode não se repetir. É a rua, é o tempo, é a vida dançando aos nossos olhos o balé do imponderável existir.

A memória guarda antigos e importantes arquivos, mas o agora faz caretas ou chora, novidadeiro inesperado de um susto ou de uma alegria. E passam por nós ou ficam conosco as emoções de um dia vivido e a expectativa de outros talvez por viver.

A passarela onde os passos e as descobertas são infindáveis permanece grátis e com portões abertos. Basta entrar e vê-los, como nunca os vimos, deslizar nos percalços e colidir com a felicidade.

As âncoras devem ser abandonadas e o barco pode flutuar sem timoneiro, levado somente pelo ser feliz. Afinal de contas estamos vivos e essa dádiva é para sermos leves como o vento que agita plantas e flores, e como o riso de crianças brincando.