Pássaros choram


Incrivelmente fácil o adeus na despedida. Os olhos da mulher amada brilhavam como sinalizando a urgência da partida, de ficar só e percorrer novos caminhos.

Na tentativa de não demonstrar a enormidade da perda, ele sorria palidamente como se aquilo tudo fosse apenas mais uma brincadeira de tantas que brincaram juntos e o espaço que os separaria pudesse ser medido em metros e não em milhas.

Euforia e tristeza misturadas convergiram para aquele lugar em que os humanos viram pássaros e voam para outras plagas. Só que ele voaria sozinho, sentindo-se estilhaçar a cada centímetro distante daquilo tudo que julgara para sempre.

Nela havia pressa de liberdade. Nele a passividade dos que perderam e não podem continuar no jogo, embora querendo.

De repente a maldita voz impessoal que ele não queria ouvir, bradou o costumeiro “passageiros do vôo... com destino...”. E lá se foi o passageiro sabendo que abandonava seu verdadeiro e último destino.

Um tchau, depois um aceno de mão e o carretel de lembranças e carinhos desenrolou-se na confusão do embarque atropelado.

Onde ela estava que não segurava sua mão como de costume? Onde ele estava que não reconhecia os rostos que o cercavam? Teria todo o agora passado sido apenas mais uma de suas criancices?

Sentou-se na poltrona do corredor do avião e disfarçadamente começou a chorar.

Homens não choram, mas pássaros e meninos choram sim...


Alberto Cohen

 

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