Visagens

Alberto Cohen

Invento versos, mas também visagens,
no tempo em que recusa a madrugada
ceder o seu lugar ao sol nascente.
Aguardo esse momento ardentemente.
É a hora em que as sombras se revezam
em mulheres que foram e não voltaram.
Lindas moçoilas ou damas antigas,
amantes, prostitutas, namoradas,
afagam meus cabelos, dão risadas,
e têm a face de velhas amigas
que a vida espalhou, mas voltam agora
para ofertar seus restos de carinho.
Cada uma delas recorda as maneiras
com que beijavam ou se davam nuas,
tornando-me guri, senhor de idade,
porém jamais um homem tão sozinho,
aquele homem que sou de verdade,
a conferir mudanças na cidade,
a procurar inexistentes ruas.
Escrevo versos mais por causa delas
que me fazem sorrir de madrugada
como se fossem nesse quase nada
as minhas derradeiras cidadelas.

 

 

.~.~.VOLTAR.~.~.