Catador de momentos

AlbertoCohen

Escorregando nas dobras do tempo,
bisbilhotando por frestas de portas,
o olhar procura sonhos muito antigos,
segue pegadas de carícias mortas,
jamais as mesmas, mas tão semelhantes
àquelas que ficaram no passado.
As frases tão baixinho sussurradas,
que poderiam ser milhões de frases
balbuciadas num dizer de antes,
vão para o cofre de guardar salvados,
depois de noutras bocas decalcadas.
E as mãos suadas fecham-se vazias,
guardando perdas que já foram ganhos,
enquanto os novos vultos anunciam,
como enorme tesouro descoberto,
o altar de envelhecidas profecias.
Em meio à multidão que se pertence,
apenas um olhar confuso e tolo
a recolher retalhos de alegria,
a rir sobras de risos esquecidas.
A própria solidão em demasia.

 

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