Conversa de marinheiros

AlbertoCohen

- José, pois não me ensinaste
toda a ciência que havia
no teu jeito de caboclo
que manhas bem conhecia,
e eis aqui, como querias,
um filho bacharelado.
Que faço, agora, José,
com coisas que não entendo,
coisas de rapaz sabido,
não de rapaz educado?
- Pensei, minha vida inteira,
que se aprendia vivendo,
que cada queda, ou tropeço,
era uma aula bem dada,
era uma porta de entrada
de um sempre novo começo,
e a chave do pergaminho,
que não tive e conseguiste,
abriria teu caminho.
Por que te vejo tão triste?
- José, eu fiz quase tudo
pra ser quem teus olhos viam,
carreto, reza, promessa,
viver a vida depressa,
que a vida é curta, dizias,
mas, em todas as chegadas,
não era eu que eu achava,
meu eu estava contigo,
dançando, junto, nas vilas,
navegando em pororocas,
cuidando dos animais.
Nas expedições, viagens
em teu barco de pirata,
de assombrações e visagens,
pelos sonhos, rios e cais,
teu menino não cresceu.
José, o que faço, agora,
sem velejar vida afora,
se teu menino sou eu?
- O mais gozado, menino,
é ver que foste o escolhido
para mostrar-me caminhos
que não pude caminhar.
Trocava todos os barcos,
tantos rios, tantas procuras,
por esse mesmo destino
de imaginar aventuras
nas margens dos absurdos,
nas marés dos impossíveis,
nos peraus dos sentimentos.
Vou contigo, em pé, na proa,
pega o leme do cordel,
são nossos esses momentos,
embarcados na canoa
que anda, navega e voa
na ponta de tua caneta,
em regatões de papel.

 

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