Diz

AlbertoCohen

Por favor,
diz que me amas.
Não importa se foi ontem, ano passado,
na idade das cavernas,
diz que me amas, assim, no presente,
para que exista alguém que me reclame,
e eu não precise tatear lembranças
em busca de uma história.
Se necessário, mente.
Fala sério, olhando nos meus olhos,
como antigamente,
só não deixa perceber que mentes,
como antigamente.
Diz que me amas, por favor, não custa muito
fazeres com que creia
nessa verdade que, de tanto querer,
tornei verdade
e transforma-me em pessoa verdadeira,
capaz de ir à janela, olhar a rua,
dar bom dia,
receber um sorriso dos que passam
e me vêem na janela olhando a rua,
dando bom dia e sorrindo à toa.
Diz que me amas,
mas, por favor, não acrescenta o ainda.
Seria quase como uma saudade,
seria um amor que quase está morrendo,
e necessito crê-lo vivo e forte,
sentir que está chegando com teus passos,
atravessando sala, corredores,
mesmo que tropece nas cadeiras.
Por favor,
diz que me amas, que não mudei nada,
que estiveste por perto, sempre, sempre,
a pedir ao meu anjo da guarda
que me guardasse te aguardando.
E chora um pouco para que as lágrimas
confirmem a idoneidade do que falas,
e faz de conta que não acreditas
quando digo que te amo.
Deixa que o feitiço de tuas mãos
recolha dos fios de meus cabelos,
a brancura das noites solitárias,
o desacerto do não mais importa,
o desalinho de não ter espelho.
Diz que me amas, sem permitir que eu tome
teu corpo, avidamente,
mas, dá-me teu corpo como uma oferenda
aos vindouros séculos de espera,
antes que sejas minha novamente.
E no tempo de olhar relógios e folhinhas
que virá depois de tua partida,
eu volte a remontar cada pedaço
da mulher que existe e bem conheço,
aquela que é mutante cada dia,
aquela que tão fácil diz que ama,
aquela que me ama porque peço.
Mas, por favor,
deixa pra lá,
diz que me amas.

 

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