ILHA

AlbertoCohen

Meu coração é uma ilha deserta
onde nem os náufragos querem aportar.
Mesmo brilhando o sol, ela é cinzenta, amorfa,
e ao invés de praia tem imenso pedral
de machucar os pés dos que ousem chegar.
Peixes ferozes nadam por entre os atóis
e aves negras de rapina pairam nos céus,
qual fiéis sentinelas da desesperança
que espreita, por detrás de árvores ressequidas,
a fumaça de navios que passam ao longe,
abarrotados de total solicitude.
Contam que há muito, mas há muito tempo atrás,
aqui viveu o amor, imenso, alegre e forte,
em companhia de carinhos e risadas
que só brincavam e faziam travessuras,
como se fossem duendes arteiros e fadas.
E colorido e belo era meu coração
que o amor tratava com o extremo cuidado
de acordá-lo cedinho, de manhã, com flores,
como se todo dia fosse aniversário.
As noites de luar e de milhões de estrelas
eram apenas um cenário repetido
ao comando do amor, não importando a hora,
para o eterno luau em que abraços e beijos
dançavam, nus, acendendo mil fogueiras.
Mas tudo cansa e o amor cansou de tanta calma
e um dia partiu, com seus carinhos e risadas,
para um lugar nenhum de amores desamados.
E o coração ficou assim, terra cinzenta
arrodeada de arrecifes e lembranças,
uma ilha para sempre inabitada.

 

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